Era uma vez três pequenos grandes amigos que eram muito famosos por toda a vizinhança, a maioria das ocasiões, não pelos melhores motivos. As suas brincadeiras, traquinices e tropelias surgiam em catadupa e conseguiam, sempre, surpreender todas as pessoas que pensavam que já tinham visto tudo. O mais pequeno, mas só em corpulência, chamava-se Gonçalo, a sua energia era tão intensa que lhe saía pelo seu sorriso constante. O mais alto era o Carlinhos, da sua cabeça saíam as engenhoquices mais incríveis que se podia imaginar. No meio, estava o menino João, o mais corajoso de todos, nunca tinha medo de nada e era sempre o primeiro a avançar para as maiores aventuras.
Os três estarolas tinha começado na semana passada uma nova e fantástica aventura. Era a grande aventura dos piratas do Grande Mar. A sua ambição era percorrer as águas do Grande Mar e para isso tinham que por mãos à obra, eles queriam construir um barco de piratas.
Todos os dias, quanto tinham ordem para brincar, eles fugiam rapidamente para a margem do mar que estava perto da caso do engenhoso Carlinhos. Nestas redondezas e no caminho procuravam tudo o que achavam que podia ser útil na realização de tão grande empreitada. Tudo servia para o barco, até os mais estranhos objectos, com o Carlinhos sempre a dar as ordens:
- Apanha ali aquilo Gonçalo! Ordenava o engenhocas.
- Mas é uma tampa de sanita? Questionava o Gonçalinho frisando a cara e escondendo o seu sorriso.
- Apanha, vai ser o leme do nosso barco. Esclareceu o Carlinhos.
E com todas estas pequeninas coisas lá foram os rapazolas construindo o seu barco para fazerem a iniciação à pirataria.
Aos fins-de-semana, eles aproveitavam todo o tempo para se dedicarem á empreitada que tinham em mãos. Para trás, lá iam ficando os trabalhinhos da escola e à segunda-feira lá estavam os três novamente de castigo.
No próximo domingo já estava combinado que todo dia seria dedicado à pirataria. Eles iam acabar de construir o barco dos piratas do Grande Mar e seria realizada a primeiro grande aventura do bando. Chegado o esperado dia levantaram-se cedinho, ainda nem o galo tinha cantado e lá foram à aventura. O dia fora muito longo, estavam fartos de recolher materiais para a construção naval e ainda não tinham começado a navegar. Com noite a chegar, os três amigos do bando dos piratas, resolveram ficar mais um pouco para acabar a sua embarcação. O Joãozinho que era o mais perspicaz, começou a ouvir lá ao longe um barulho estranho, que vinha do Grande Mar e perguntou aos seus amigo:
- Vocês ouviram este barulho?
- Sim! Responderam em coro o Gonçalo e o Carlinhos.
- Parece alguém a chorar, não é? Questionava o João intrigado.
O Carlinhos e o Gonçalo responderam abanando a cabeça e com os olhos bem abertos.
Os rapazolas começaram andar e a espreitar para o mar, para ver se percebiam de onde vinha aquele estranho barulho.
À medida que se aproximavam iam ficando cada vez mais assustados, eles não viam nada porque já estava a ficar muito escuro. De repente, eles viram algo a mexer na água e gritaram em coro:
- Viram! Os três desataram a correr com todas as forças que tinha em direcção à casa do menino Carlinhos… Parece que a aventura dos piratas do Grande Mar tinha acabado por ali!
- Nunca mais lá volto! Exclamava o Gonçalo ainda ofegante daquela correria.
- Voltas sim. Retorquiu o João com um ar confiante e acrescentando:
- Voltamos, mas vamos de dia e temos que saber o que era aquilo.
- Era um monstro! Disse o Carlinhos ainda trémulo.
Os amigos voltaram para casa, mas naquela noite todos tiveram muita dificuldade para adormecer. Não lhes saía da cabeça aquele choro que tinham ouvido.
No dia seguinte, durante a escola, foram combinando como iriam procurar “O monstro do Grande Mar”, como lhe apelidava o Gonçalo. Mal terminaram as actividades escolares, agarraram nas mochilas e começaram a correr em direcção à margem do Grande Mar. Pelo caminho procuravam os melhores paus para se defenderem do Monstro.
Quando chegaram viram o barco dos piratas completamente destruído. A angústia dos amigos era muito grande, o Gonçalo não parava de repetir:
- Vamos embora, acho que foi má ideia termos vindo.
- Cala-te. Respondia sempre o João.
Lá ao fundo começaram a ouvir novamente o mesmo choro. Parecia o choro de uma criança. Mas o Carlinhos não estava convencido com aquela choradeira:
- Não acreditem naquele choro, deve ser o Monstro a querem nos enganar.
Mas o menino João, que nunca se intimidava, avançou em direcção ao ruído. Atrás de si levava os outros dois, que mais pareciam a sua sombra, de tão colados a agachados estavam.
Lá ao fundo, na direcção do ruído começaram a ver uma luz muito intensa e o Gonçalo continuava a dizer:
- Vamos embora, deve ser um Monstro de cabelos dourados.
E o João respondeu:
- Cala-te, vamos mas é escondermo-nos atrás daquela rocha.
Agachados atrás da rocha, o Carlinhos e o Gonçalo nem queriam espreitar, com medo que o Monstro dos cabelos dourados os fulminasse.
Mas o menino João encheu-se de coragem e agarrado à rocha pôs um olhito de fora:
- Aaahhh… que linda…
João estava maravilhado. No cimo de uma rocha viu uma linda menina, com cabelos de ouro e um corpo de peixe. Virou-se para os amigos e exclamou falando baixinho:
- Podem espreitar, mas não façam barulho para não a assustarem e larguem os paus.
- Não assustar quem? Medo temos nós! Questionou Carlinhos.
- Não tenham medo, podem espreitar. Aconselhou o João.
O Gonçalo e o Carlinhos, agarrados à rocha que nem um lapa, lá foram pondo a cabecita de fora. Quando olharam para aquela maravilhosa imagem não resistiram:
- AAAHHH…
A pequena criatura ouviu os meninos e mergulhou repentinamente para dentro de água.
O João estava furioso com os seus colegas.
- Eu não vos disse para não fazerem barulho, agora assustaram a pequena sereia! Resmungou o João com um ar muito zangado.
Dirigiu-se à margem e começou a gritar:
- Não te assustes pequena sereia, nós só te queremos ajudar.
O Carlinhos dizia para o Gonçalo:
- Não sei se queremos? Ainda muito intrigado com a criatura que tinha visto.
O menino João ficou ali sentado na margem à espera que algo acontecesse. Os outros dois iam repetindo quase em coro:
- Vamos embora, ainda não temos a certeza que a bichinha não nos quer fazer mal.
Quando a noite começou a cair, o João lá se decidiu a regressar a casa.
No regresso, o João obrigou o Gonçalo e o Carlinhos a não contarem nada a ninguém, ele dizia que era o segredo dos piratas do Grande Mar.
Nessa noite, os dois amigos lá ficaram mais umas horas sem dormir, eles não paravam de ver a imagem daquela linda criatura.
Nos dias seguintes, mal terminava a escola, o João obrigava os seus amigos a regressarem ao sítio onde tinham visto a sua pequena sereia. Dia após dia, o João ia passando as tardes sentado na margem do Grande Mar, mas da sua sereia nem um pequeno brilhozinho. Estava cada vez mais triste o pequeno João, todos lhe perguntavam o que ele tinha, mas ele tinha um pacto com os outros dois piratas e nada podia revelar.
No final da semana o João, o Carlinhos e o Gonçalo combinaram que no sábado de manhã, logo pela fresquinha iam passar o dia na margem do Grande Mar. Tinham que ver a pequena sereia do João. Eles achavam que ela teria que vir ao cimo da água mais não fosse para respirar.
Para que a criatura não tivesse medo deles, preparam um lindo ramo de flores para lhe oferecer. O João tinha recolhido todas as flores.
Chegado o dia, mal o Sol começou a espreitar, começaram a caminhar em direcção ao “Grande Mar”.
Quando estavam a chegar aquele sítio voltaram a ver ao longe aquela luz intensa. Apressaram-se a esconder-se atrás da rocha. As suas pulsações estavam a mil à hora. O corajoso João obrigou os seus amigos a jurarem que não saíam de traz da rocha sem a sua autorização.
A seguir, ele tomou coragem, e com o ramo que tinha preparado tão cuidadosamente saiu de traz da rocha dizendo:
- Não tenhas medo, só te queremos ajudar!
A pequena criatura ficou aterrorizada e debruçou-se na rocha quase que mergulhando novamente, toda ela termia de medo. Mas o João continuava:
- Só te quero ajudar, não tenhas medo.
Continuava o seu discurso que tinha preparado para a ocasião:
- Eu chamo-me João e só quero ser teu amigo, não te quero fazer mal, vou-te ajudar. E tu como te chamas?
A pequena sereia do João lá lhe respondeu, mas ainda com a voz trémula de tanto medo que sentia.
- Eu, eu chamo-me Carmelita, sou a filha da ninfa Carmela e de um antigo poeta chamado Luís.
- Uma ninfa, o que é isso? Perguntaram em voz alta o Carlinhos e o Gonçalo atrás da rocha.
A pequena ninfa, assustou-se e mergulhou rapidamente para a água. O João gritava desesperado:
- Não te assustes, são só os meus amigos.
Passado algum tempo e depois de muita gritaria a chamar pela Carmelita lá se começou a ver uns raios de luz a aparecerem à tona da água. A Carmelita veio até ao pé da margem e disse:
- Eu sou uma ninfa, as ninfas são seres encantados que vivem nos lagos ou nos mares, somos parecidas com as sereias. Nós fomos a inspiração de muitos poetas que antigamente vinham para a margem deste rio para comporem as suas poesias.
- Rio? Qual rio, aqui é o grande mar. Questionaram e logo responderam os amigos. A Carmelita muito graciosa respondeu:
- Não, este é um rio, um grande rio que se chama Tejo e nós estamos perto do sítio onde o rio e o mar se abraçam. Estamos perto da foz. Esclareceu a pequena ninfa.
Os três estarolas coçando a cabeça, como que a dar luz às suas lembranças, recordaram:
- Há, já nos lembramos disso, o nosso professor já nos tinha explicado.
Mas o João ainda intrigado com o choro da pequena ninfa, queria saber qual a razão de um choro tão profundo:
- Carmelita, ainda não nos disseste porque estavas a chorar.
A tristeza voltou ao rosto lindo da Carmelita, e ela respondeu:
- Eu vivo com a minha família no fundo do Oceano Atlântico, mas como sou demasiado curiosa, vim passear ao rio Tejo e agora não consigo sair. Respondeu a Carmelita e continuou:
- Bem que o meu pai já me tinha avisado, ele disse-me que o rio Tejo estava zangado.
O Gonçalo estava muito intrigado, aquela conversa parecia um sonho, ou um pesadelo. E ele perguntou à Carmelita porque é que o rio Tejo estava zangado. Ela delicadamente respondeu:
- Antigamente, o rio Tejo era muito lindo, haviam muitos barcos à vela, tantos que as suas águas pareciam uma floresta encantada, brilhante e com as árvores branquinhas. As águas eram muito brilhantes e limpas, os poetas iam às margens para se inspirarem e haviam muitas criaturas encantadas como eu, as sereias e os nossos amigos golfinhos faladores, tudo era maravilhoso. Depois vieram as fábricas, as pontes e cada vez o rio vê menos pessoas a passarem por ele. As suas águas estão muito diferentes, já não são limpas nem brilhantes. E é por tudo isto que o rio está triste. Vocês não acham que ele tem razão?
- SIM! Responderam o três amigos em coro, acrescentando:
- Coitadinho do rio!
Mas o Carlinhos ainda tinha questões para fazer à Carmelita.
- Oh Carmelita, mas ainda não nos disseste porque é que estragaste o nosso barco?
A Carmelita respondeu:
- Não fui eu, foi o rio Tejo! Ele para não me deixar sair dos seus braços agitou com toda a força as suas águas e nasceram ondas gigantes, que destruíram o vosso barco. É por isso que eu estou a chorar, porque o Tejo não me deixa sair e assim não consigo voltar a casa.
- Mas como é que nós te podemos ajudar? Perguntou o João.
- Vocês têm que falar com o Tejo e prometer-lhe que lhe fazem companhia.
O Gonçalo, mais uma vez, achou estranha a conversa da Carmelita e perguntou-lhe:
- Mas como é que podemos falar com um rio?
A Carmelita não hesitou na resposta:
- Tens que ouvir o silêncio, e no meio dele ouves uma voz baixinha e que fala muito devagar. Para falares também tens que falar muito baixinho e devagar.
De repente instalou-se um grande silêncio entre os três amigos. Eles queriam ouvir a voz do Tejo no meio do silêncio.
Lá bem ao fundo, no meio do silêncio, os meninos escutaram uma voz grave, mas que parecia estar muito longe.
- OLÁ MENINOS, COMO É QUE VOCÊS SE CHAMAM?
Os três amigos não podiam acreditar, tinham ouvido o rio a falar. O Carlinhos com uma cara de enorme admiração exclamou:
- Como é possível, ouvimos o rio a falar!
Já o seu menino Gonçalo estava mais uma vez com o seu enorme sorriso de nervoso miudinho pregado na cara e respondia atormentado:
- Não acredito, Carmelita só nos podes estar a enganar?
A pequena ninfa já farta de tanta conversa gritou:
- VÃO RESPONDER OU QUÊ?
Da boquinha do Gonçalo saltou-lhe:
- Quê! O pequeno Gonçalo estava muito assustado.
Já o seu amigo corajoso João estava cheio de vontade de falar com o Tejo, mas não sabia como:
- Mas Carmelita como é que eu falo com o rio?
A Carmelita apressou-se a responder.
- Já vos disse, falam muito devagar e baixinho para que se possa ouvir bem no meio do silêncio.
- Então vou experimentar. Respondeu o Joãozinho.
- E-u s-o-u o m-e-n-i-n-o J-o-ã-o, e t-u c-o-m-o t-e c-h-a-m-a-s?
Lá ao fundo voltou a ouvir-se aquela voz:
- MAS QUE BEM QUE TE OUVI, EU CHAMO-ME TEJO E OS TEUS AMIGOS COMO SE CHAMAM?
O Gonçalo e o Carlinhos estavam um pouco temerosos de falar com o rio, mas o seu amigo João providenciava a coragem:
- Vamos lá a responder antes que eu me chateie! Não tenham medo falem devagar e baixinho.
Os outros dois agacharam-se junto do mar, colocaram as suas orelhitas perto da água, mas não ouviram nada. E lá se decidiram a falar com o mar:
- Eu sou o Gonçalo. Respondeu o menino com a sua voz a tremelicar.
- E eu chamo-me Carlos e queria saber porque é que não deixas a Carmelita voltar para casa? Perguntou o menino Carlinhos com o seu ar sempre curioso.
Mais uma vez, lá bem do fundo escutaram aquela voz:
- VOCÊS FALAM MUITO DEPRESSA, MAS EU ENTENDI-TE CARLINHOS! E o Tejo continuou a sua explicação:
- EU ESTOU MUITO ENVERGONHADO PELO QUE FIZ À CARMELITA, ELA SEMPRE FOI UMA GRANDE AMIGA, MAS EU NÃO QUERIA FICAR MAIS TEMPO SOZINHO. QUANDO FICO SOZINHO FICO MUITO TRISTE. E VOCÊS NÃO FICAM?
Os três meninos responderam em coro:
- SIM, CLARO QUE SIM!
Mas o João fez uma promessa ao Tejo:
- Não fiques triste Tejo, de hoje em diante nós vamos fazer-te companhia, mas tens que libertar a Carmelita!
O Tejo ficou tão feliz que juntamente com um enorme “SIM”, veio uma brisa muito fresca cheia de pequenas gotinhas de água. Os três amigos ficaram deliciados a sentir aquela maravilhosa frescura e o pequeno João exclamou:
- Carmelita agora já podes ir para perto da tua família, mas tens que nos prometer que nos vens visitar, sim?
Na face da Carmelita estava espelhada uma felicidade que não tinha fim. Com um sorriso muito aberto respondeu ao seu grande amigo João:
- Como é que eu poderia deixar de vos visitar, vocês os quatro são os meus melhores amigos!
A Carmelita despediu-se de todos e lá foi em direcção ao Oceano Atlântico. Os três amigos aventureiros foram acenando, deixando escapar umas pequenas lágrimas dos seus olhitos já cheios de saudade. O Tejo com as suas ondas foi encaminhando a pequena ninfa em direcção ao Oceano.
Desse dia em diante o João, o Carlinhos e o Gonçalo tinham um segredo e todos os dias iam visitar o seu novo amigo.
Quem estava muito admirado com os meninos era o seu Professor, pois estes respondiam a questões de história, geografia, língua portuguesa ou até de matemática sempre de forma acertada, parecia que o estavam a enganar.
Mas o grande segredo era que eles tinham um explicador que já tinha vivido muitas experiências e que era muito sábio, era o seu amigo Tejo. Mas esse é o nosso segredo, guardem-no bem…
FIM
António Miguel Ferreira